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donarosa A verdade, parte II Assisiti agora à tarde a um filmezinho brasileiro despretensioso: O Casamento de Louise. Sabe quado tu ali na frente da TV, de bobeira, com preguiça até mesmo de apertar o botão do controle remoto e, de repente, o filme te pega? Seja por uma cena banal, uma coisa inusitada, um detalhe que toca a alma naquele instante mais inesperado? Tô sozinha em casa, concatenando idéias, esvaziando o cérebro de um ano de porrada no trabalho (e olha que trabalhei neste domingo!). Mas o fato é que o patrão, a vassalagem e os herdeiros se mandaram e estou aqui sem saber o que fazer. A casa ficou imensa, ouço os grilos cochichando amenidades entre si, as sombras da folhagem desenhando monstros na parede e eu já pensando que essa noite dormir só de abajur ligado! Passei meses resmungando pela casa, resignando a minha sorte de não ter um segundo sequer na solidão, nem no banheiro, e agora estou aqui louca para ouvir a criançada, o telefone, a barulheira tão conhecida, os pensamentos retumbando tão alto que até tenho vergonha do guardinha que passa lá na rua apitanto. Será que ele pode me ouvir? Mas então que o filme me pega de sangue bom, com a pá desvirada. Sim, porque se quando estamos com a pá virada estamos pirados, creio que eu estivesse com a pá desvirada. O filme é com a Dira Paes, o Marcos Palmeira e a Sílvia Buarque. Será que o nome da Dira é Jandira? Ninguém merece se chamar Jandira. Dira é um pouco menos pior, creio. E por que será que insistem em colocá-la sempre em papéis de empregada, de babá, de pobre enfim? Claro que nesse filme ela é a empregada. Mas o filme é um misto de babaquice legalzinha com alguns momentos engraçados, outros nem tanto, mas valeu o meu investimento. Afinal, estou no processo anteriormente citado de esvaziamento cerebral. E nada melhor que ficar duas horas na frente da TV sem pensar em nada, só viajando na história lugar-comum. Mas lá pelas tantas, a Sílvia Buarque que é a Louise no filme, embesta de casar com um maestro sueco. Ela é separada de um banqueiro e toca violino, tendo conhecido o sueco na orquestra. Mas isso não interessa. O cara vai almoçar na casa dela, enche a cara de caipirinha e se apaixona pela empregada, a Dira. O melhor de tudo no filme é a atuação do cara que faz o maestro. É muito boa!! E a Dira também! Lá pelas bandas do fim, ela acaba indo tocar panela na orquestra e o cara, claro, casa com ela e a leva para a Suécia. Na cena da orquestra ela aparece tão bonita em um vestido vermelho que me fez questionar esse lance de só darem esses papéis menores a ela. Isso sim é a coisa mais clichê que eu já vi. Tá, tudo bem, não sei se é a mais, mais é um pouco. Mas alguém aí já viu o Chico Diaz fazer um papel que não seja de bandido, marginal ou maloqueiro? E o cara é um puta ator. Mas também, a lata do sujeito não ajuda. É como a Dira, super talentosa, mas não tem a cara da Maitê Proença, a linhagem da Sílvia Buarque, tão sem-graça. Depois de investir um hora e lá vai no filme brasileiro, me senti bem melhor. Terapia pra quem tem assim suas loucurinhas básicas, mas ainda consegue resolvê-las solo. Ainda bem que tudo, neste momento, é uma questão de querência, e não de precisão. No fim das contas, quem casou com o sueco foi a empregada e não a patroa, que ficou com o ex-da empregada, um jogador de futebol chinelão, muito bem feito pelo Palmeira. Tô eu aqui dando uma de crítica de cinema. E vim aqui pra falar do meu momento sozinha... Mas recorri ao Google, aquele que tudo sabe, tudo vê, e olha a surpresa: o nome da Dira Paes é Ecleitira Maria Fonseca Paes. Ai jijuis, depois disso Dira soa como música... Como eu li por aí, a verdade é sempre mais difícil. Escrito por Dona Rosa às 22h04 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] Fragmentos perdidos Tenho saudades dos meus. Daqueles que se foram antes que eu me entendesse por gente e nem pudesse sentir sua falta. Queria conhecê-los, saber quem foram, o que faziam, como viviam, como chegaram até ali. Gosto de conhecer pessoas, observar seu jeito de falar, sorrir, viver. Alguns dos meus já partiram. Eu queria conhecer estas histórias, a história de onde deriva a minha história. Às vezes me pego pensando em como sou diferente deles. Mas como diferente se nem os conheci? Apenas sabia seus nomes. E muitos tiveram o nome adulterado pelos desvios da dificuldade, pelos caminhos da ignorância das coisas da lei, pelo curso da vida, que nem sempre é linear. Como é difícil montar uma árvore genealógica mental quando não se consegue ir além da geração anterior. Como é necessário saber de onde se vem, quem nos precedeu. Como eu poderia entender melhor os meus próximos, os que hoje vivem comigo. Preciso tê-los, preciso sabê-los. Não quero me dar conta, depois que eles se forem, que eu também não os tive, que foram estranhos para mim. Quero continuar tentando entender seus motivos, suas falhas, minhas falhas. Quero continuar escrevendo esta história com todos os personagens. Não quero que meus filhos sejam reféns, como sou, de lembranças antigas e de rostos que não dizem nada, apenas remetem a um tempo perdido... Escrito por Dona Rosa às 21h53 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
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